João Capistrano de Abreu era funcionário da Biblioteca Nacional quando surgiu um concurso para a área de História do Brasil no Imperial Colégio Pedro II. Foi para esta ocasião que redigiu este O descobrimento do Brasil, em 1883. Completava então 30 anos e começava uma trajetória de historiador e professor que iria até 1899 quando deixou o cargo no Pedro II após uma reforma que anexou a cadeira de História do Brasil à de História Universal.
Não será exagero afirmar que com O descobrimento do Brasil, era o próprio autor que se revelava como historiador na Corte do Império. Os relatos da cerimônia de defesa da sua tese, como o de Carl von Koseritz em seu livro Imagens do Brasil – com a presença do próprio Imperador D. Pedro II – destacam o conhecimento das fontes da história do Brasil pelo cearense, a erudição até maior que a dos examinadores Matoso Maia e Moreira de Azevedo.
Silvio Romero também fez parte da comissão julgadora. Neste ritual de passagem era portanto descoberto o historiador Capistrano de Abreu.
Já notaram seus intérpretes como uma das características distintivas do livro, sobretudo em sua parte inicial, quando discute um enigma de crítica histórica sobre quem descobriu o Brasil, será a precisão com que o autor constrói de maneira rigorosa uma argumentação que se aproxima muito de uma peça judiciária. A construção elaborada por Capistrano coloca claramente para o leitor aspectos de um novo método investigativo que propunha separar o fato da fantasia e, confrontando testemunhos, busca estabelecer critérios confiáveis para o acesso à uma verdade factual.
Na mesma medida em que montava a peça argumentativa, sinalizava para os contemporâneos o proceder de um novo tipo de intelectual: o historiador moderno. E revelava uma das etapas de seu trabalho, a crítica documental. É talvez a obra de Capistrano em que essa etapa do ateliê historiográfico aparece com mais força, embora num pequeno texto de 1880 sobre a Armada de D. Nuno já transparecesse a mesma metodologia.

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