Suzana Varjão – Micropoderes, Macroviolências

Posted on Posted in Ciências Sociais, Comunicação

Há um consenso sobre a relevância da comunicação de massa para a sociedade contemporânea. Esta concordância, entretanto, não tem sido acompanhada de atitudes e comportamentos relacionados com o fazer da comunicação, de um modo geral. Nos produtos comunicacionais, é possível observar marcas de distinção as quais, por sua vez, sugerem que a mídia tende a se pautar por esquemas de classificação previamente estabelecidos na sociedade. Desse modo, há assuntos que são abordados, sistematicamente, como relevantes, ao passo que outros ocupam o lugar oposto, correspondendo a uma diminuta importância.
A hierarquia dos assuntos na mídia não seria motivo de grande preocupação, caso não houvesse uma dupla circunstância: o lugar privilegiado ocupado pela mídia na hierarquia da sociedade e a natureza do papel desempenhado pelos meios de comunicação na atualidade. A apreciação positiva que se tem em relação à mídia em comparação com as instituições que compõem o Estado, especialmente no contexto da sociedade brasileira atual, torna mais adequada a necessidade de zelo e responsabilidade quando da confecção de todos os produtos midiáticos, com especial atenção para os materiais jornalísticos. E isto se deve ao crédito de que gozam os meios de comunicação em nosso tecido social. Acresce-se a isto o aspecto de que a comunicação de massa e o jornalismo em particular, pela sua própria natureza, ocupam lugar especial na construção de sentido da realidade. Trata-se de uma esfera capaz de acusar a existência de algo a um número incontável de indivíduos que, de outro modo, não teriam acesso àquela informação.
É possível observar que, na produção jornalística, é habitual que determinados eventos sejam mais ricamente apresentados em contraposição a outros para os quais são destinados procedimentos sumários. Com esta prática, independentemente de vontade objetiva, a mídia sugere uma apreciação dos fatos a partir de uma classificação dos mesmos, classificação esta que é resultado do tratamento desigual por ela dispensado. Na distribuição dos eventos a serem noticiados, as ocorrências relacionadas com a violência tendem, sistematicamente, a ocupar os espaços menos “nobres” dos jornais, podendo-se gerar daí alguns sentidos preocupantes, entre os quais destaca-se: o problema da violência não é importante ou tem importância mínima diante dos outros.

Deixe uma resposta