O problema da indução é certamente um tema clássico da filosofia. Diferentes abordagens e tentativas de justificação das inferências indutivas já foram propostas: a priori, pragmática, indutiva, recurso à probabilidade, entre outras. Além disso, uma avaliação da natureza dos raciocínios indutivos é importante nos campos da lógica, da epistemologia e da filosofia da ciência: a viabilidade do conceito de validade indutiva e a estrutura lógica dos argumentos indutivos, se crenças baseadas em processos inferenciais indutivos podem ter justificação e sob que condições isso é possível e se os raciocínios indutivos exercem algum papel na pesquisa científica. De todo modo, o estudo dos diversos padrões de argumentação indutiva – inferência à melhor explicação, inferência do observado para o inobservado, indução enumerativa e inferência do passado para o futuro – revela uma propriedade comum entre eles: premissas verdadeiras não asseguram logicamente que a conclusão também seja verdadeira.
É correto dizer que grande parte da discussão na filosofia contemporânea sobre a justificação da indução é devedora à análise, embora incipiente, realizada por David Hume. Na tradição da filosofia analítica, o problema da indução em Hume é notoriamente considerado como o problema clássico da justificação racional das inferências indutivas. Ele problematizou, contudo, um tipo particular de raciocínio indutivo: a inferência do observado no passado para o inobservado no futuro. Uma análise do conjunto teórico pelo qual tal problema se constrói nesse autor é o objetivo central desta monografia. Assim, um estudo da seção IV da Investigação acerca do Entendimento Humano se faz necessário. Porém, é igualmente relevante, para uma caracterização satisfatória da epistemologia humeana, ter como background o Tratado da Natureza Humana.
Este trabalho está dividido em três capítulos. O primeiro apresenta alguns pressupostos epistemológicos fundamentais das teorias do entendimento e da percepção de Hume. As diferenças qualitativas entre impressões e ideias, o princípio da cópia e o contraexemplo the missing shade of blue, a natureza intrínseca da percepção, a bifurcação entre relações de ideias e questões de fato são os objetos da primeira parte. A diferença entre os conceitos de relações de ideias e de questões de fato é decisiva para os problemas da causação e da indução. Ademais, é fundamental lembrar que tal separação, quanto aos objetos do entendimento, fora produzido outrora por Leibniz como verdades da razão e verdades de fato.

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