Modesto Carone – Lição De Kafka

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A teoria literária brasileira produziu raros estudos sobre a obra de Kafka. A contribuição de Modesto Carone nos catorze ensaios aqui reunidos é especialmente importante porque conta com o conhecimento e os instrumentos de análise do professor e a intimidade com o texto do tradutor. O ponto de partida para os diferentes textos deste livro foi o ensaio sobre A metamorfose, que trata de decifrar a novela mais famosa do escritor tcheco. Depois, ao longo dos anos, foram muitas aulas, conferências, escritos. Algumas dessas reflexões são agora trazidas a público pela primeira vez em livro. Entre elas, destaca-se o ensaio que mostra como Kafka, longe de criar fábulas absurdas, valeu-se do duro alemão cartorial para fazer um relato realista da sociedade em que vivia – e que continha os elementos de nossa sociedade de hoje. Para Kafka, a longo prazo a literatura deveria ser como um machado que quebra o mar congelado que há em cada um de nós.

Consumido todo o carvão; vazio o balde; sem sentido a pá; a estufa bafejando frio; o quarto inteiro atravessado por sopros de gelo; diante da janela as árvores rijas de geada; o céu um escudo de prata contra quem deseja o seu auxílio. Preciso de carvão; certamente não posso morrer congelado; atrás de mim a estufa impiedosa, à minha frente o céu igualmente sem pena, tenho portanto de cavalgar nítido entre os dois e no meio buscar a ajuda do carvoeiro. Mas ele já está insensível aos meus pedidos costumeiros; é necessário provar-lhe com precisão absoluta que já não tenho uma só migalha de carvão e que sendo assim ele significa para mim o próprio sol no firmamento. Devo chegar como o mendigo que estrebuchando de fome quer morrer na soleira da porta e a quem, por esse motivo, a cozinheira dos patrões resolve dar para beber a borra do último café; do mesmo modo o carvoeiro, furioso mas sob o raio de luz do mandamento “Não matarás!”, tem de atirar no meu balde uma pá cheia de carvão.

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