Anabela Gradim (Org.) – A Construção Da Ciência: Da Lógica Da Investigação À Medição Do Impacto

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É àquela tríplice provocação de Górgias – nada existe; se existisse não poderia ser conhecido; se fosse conhecido não poderia ser comunicado – erigida contra o seu mestre, a que a Ciência procura responder. Este livro, que resulta do trabalho preliminar de revisão bibliográfica de uma investigação no âmbito da Comunicação de Ciência atenta principalmente sobre este último aspecto do tríptico da ciência – como comunicá-la – reunindo oito ensaios que vão desde o que distingue as ciência naturais das ciências sociais e humanas, passando pela permeabilidade da lógica da ciência e da descoberta aos factores sociais, até à comunicação e avaliação de resultados científicos e sua difusão junto do público em geral.
“As duas culturas de C. P. Snow e a justificação de Isaiah Berlin”, de António Fidalgo, trata do crescente afastamento entre os homens das ciências e das humanidades, que têm cada vez maior dificuldade em entender-se, e da cultura subliminar de hostilidade que entre ambos se vem desenvolvendo. Enquadrando o trabalho no contexto do desenvolvimento do aparelho científico em Inglaterra no pós II Guerra, e das opções políticas então seguidas, revêem-se os seus críticos, mas também o entendimento que o Snow faz do seu próprio trabalho: um apelo à ação, em prol de uma melhor educação, a qual tem como desígnio a industrialização enquanto projeto científico e cultural. A polarização entre as duas culturas representa uma perda e um obstáculo ao progresso científico, e a educação científica e tecnologicamente orientada, a via para superá-la, conduzindo à prosperidade e à paz.
Anabela Gradim trabalhou a obra de Kuhn na perspectiva de uma abordagem pragmática que trouxe para o debate público a abertura das ciências naturais aos aspectos retóricos e sociológicos da produção de ciência. Note-se que no interior do paradigma do positivismo lógico não havia nem conceitos, nem linguagem, que permitissem estatuir a questão, ou considerar a verdade fora do âmbito de uma estrita teoria da correspondência. Assim, quando a discussão foi lançada na década de 60, com A Estrutura das Revoluções Científicas, as repercussões foram enormes. A obra inaugura ela própria um novo paradigma em epistemologia, e esta revisitação do mais influente epistemólogo do século XX considera também a reflexão e reelaboração que Kuhn produziu sobre o tema nos 30 anos subsequentes, e o impacto na autoimagem que as ciências forjam delas próprias.

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