Para ser bem honesto desde o início, devo admitir que não simpatizo com a ideia de que a criação exige um criador, base de todas as religiões do mundo. Todos os dias, belos e extraordinários objetos aparecem de repente, de flocos de neve em uma manhã fria de inverno a vibrantes arco-íris que surgem após uma chuva de fim de tarde no verão. Mas ninguém além do fundamentalista mais ardente sugeriria que todo e cada objeto é criado amorosa, meticulosa e, o mais importante, propositadamente por uma inteligência divina. Na verdade, muitos leigos, assim como cientistas, se deleitam com nossa capacidade de explicar como flocos de neve e arco-íris podem aparecer de forma espontânea com base nas leis simples e elegantes da física.
É claro que alguém pode perguntar, e muitos o fazem, “de onde vêm essas leis da física?” e, mais sugestivamente, “quem criou essas leis?”. Mesmo que essas questões possam ser respondidas, o suplicante, então, perguntará “mas de onde veio isso?” ou “quem criou isso?”, e assim por diante.
Eventualmente, muitas pessoas sensatas são levadas à necessidade aparente de uma Primeira Causa, como Platão, Tomás de Aquino ou a Igreja Católica Romana moderna poderiam colocar, e, assim, supor a existência de um ser divino: um criador de tudo o que existe e de tudo o que venha a existir, alguém ou algo eterno e onipresente.
No entanto, a declaração de uma Primeira Causa ainda deixa aberta a questão: “Quem criou o criador?” Afinal, qual é a diferença entre argumentar a favor de um criador de existência eterna ou de um Universo de existência eterna sem criador algum?
Essas discussões sempre me fazem lembrar a famosa história do especialista que dá uma palestra sobre as origens do Universo (ora identificado como Bertrand Russell, ora como William James) e é desafiado por uma mulher que acredita que o mundo é sustentado por uma tartaruga gigante, que por sua vez é sustentada por outra tartaruga, e então outras tartarugas “até lá embaixo”! Uma regressão infinita de uma força criativa que gera a si mesma, mesmo uma força imaginada maior que tartarugas, está longe do que quer que tenha dado origem ao Universo. Ainda assim, a metáfora da regressão infinita pode, na verdade, estar mais próxima do processo real pelo qual o Universo veio a existir do que um único criador poderia explicar.

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