Jaime De Magalhães Lima – A Guerra: Depoimentos De Herejes

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Um direito o nosso tempo conquistou plenamente, o direito de heresia. Muitos outros tentou proclamar, desde o meado do século XVIII até hoje. Pela sua vitória se esforçou e sacrificou.
Mas, se muitos quis e por momentos imaginou possuir, quase outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e mágoa com que invariavelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas.
O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos os dogmas, todos os princípios e todos os preceitos da religião, da filosofia, da arte, da ciência, da politica, e de quanta afirmação o nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de rejeitar no governo da nossa atividade espiritual e material toda a autoridade independente de restrição e de crítica – esse logrou, porém, prevalecer através de todas as vicissitudes a que o tiveram e têm sujeito múltiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas.
Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos templos como as que se lisonjeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade.
É isso tão legitimo, de uma tão genuína fidelidade à razão, como o desdém das iras olímpicas de Júpiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os césares, sejam eles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da soberania popular. “Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos de nos libertar das suas glórias”, disse Mazzini.
E isso, que algum dia poderia parecer blasfêmia do revolucionário, encerra hoje apenas uma modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito heroísmo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.

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