Cartas chilenas está entre os poemas mais complexos da literatura brasileira por questões que transcendem o seu valor artístico. Foi escrito em decassílabos brancos, com 3.964 versos, composto de treze cartas, estando a sétima e a décima terceira incompletas. Muitos estudos tratam da sua origem, autoria e qualidade estética. O poema correu inicialmente em manuscritos nas décadas finais do século XVIII, conforme se deduz pelas referências a ele nos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira.
Não há consenso entre os que estudaram a sátira, apesar das alusões assinaladas, se ela contribuiu para influenciar o ânimo dos Inconfidentes de 1789, em Minas Gerais. O fato é que as Cartas chilenas refletem a efervescência política que dominou o Brasil nas últimas décadas do século XVIII por conta dos movimentos libertários de Minas, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco.
As Cartas chilenas colocam os costumes brasileiros sob ferina análise crítica, ao retratar o confronto entre o Ouvidor-Geral de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga, e os desmandos de um tiranete, o Governador da Capitania de Minas Gerais, Luís da Cunha Meneses. Gonzaga aproveitou, como modelo para a sua sátira, a estrutura ficcional empregada por Montesquieu nas Cartas persas, em que criticara a França do seu tempo através de dois persas que remetem de Paris cartas ao seu país, comentando os costumes europeus.
Nas Cartas chilenas, a história transcorre no Chile, que simboliza Minas Gerais. A capital é Santiago em vez de Vila Rica.
A Universidade de Coimbra transforma-se na de Salamanca, e Portugal figura como Espanha, onde pretensamente estaria o destinatário das Cartas, Doroteu, nome corrente no Arcadismo. A estrutura do texto abriga duas personagens que centralizam a ação a ser narrada: Doroteu, autor da “Epístola” que antecede as treze Cartas a ele destinadas; e Critilo, que narra a Doroteu os fatos que envolvem Fanfarrão Minésio.
O anonimato dessa obra foi necessário pela violência com que nas Cartas chilenas se atacavam o Governador Luís da Cunha Meneses e seus mais próximos auxiliares na administração da Capitania de Minas Gerais. O sigilo em que se manteve o autor, utilizando o pseudônimo Critilo, produziu, talvez, o mais famoso caso de identificação na história literária brasileira, a ponto de o significado estético das Cartas chilenas ter sido relegado a um segundo plano. Hoje, a questão da autoria das Cartas está encerrada:
o autor é Tomás Antônio Gonzaga.

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