Joaquim Nabuco tinha quinze anos, quando pela primeira vez escreveu a Machado de Assis. A sua adolescência raiava como a aurora de uma grande vida. Este menino de colégio, que publicava versos assinalados pelos críticos, pertencia ao patriciado brasileiro em uma época em que a nossa comunhão social tinha a feição aristocrática de um país de senhores e de escravos.
Na grande casa familiar da Praia do Flamengo formara-se-lhe o ambiente da imaginação política. Aí, como um oráculo da jurisprudência e dos partidos, vivia seu pai, o Senador Nabuco, um dos iluminados inspiradores do Império, venerado como uma divindade por uma clientela de cortesãos e discípulos.
Era um desses espíritos engenhosos e dúteis, que o artifício idealista da monarquia parlamentar afeiçoara, e cuja expressão de escritor e de orador, trabalhada pela disciplina jurídica, se estilizara até a solidez e à pureza cristalina das sentenças. Quando mais tarde, Machado de Assis evocar o Velho Senado dirá: “Nabuco, outra das principais vozes do Senado, era especialmente orador para os debates solenes… A palavra do velho Nabuco era modelada pelos oradores da tribuna liberal francesa. A minha impressão era que preparava os seus discursos e a maneira por que os proferia realçava-lhes a matéria e a forma sólida e brilhante. Gostava das imagens literárias; uma destas, a comparação do poder moderador à estátua de Glauco fez então fortuna. O gesto não era vivo, mas pausado, o busto cheio era tranquilo e a voz adquiria uma sonoridade que habitualmente não tinha.”
A auréola do pai irradiava-se sobre o filho e germinava-lhe a consciência da predestinação. Outro impulso para a vitória fora da própria beleza corporal. Já na adolescência Joaquim Nabuco ergue-se, por entre os excessos e desordens dos trópicos, com aquela expressão apolínea que é uma libertação de toda a submissão cósmica e que exprime na perfeição da forma o domínio do espírito sobre a matéria universal. Aquele que realiza este maravilhoso triunfo contempla as coisas e não pertence a elas.
Durante toda a sua atividade, Nabuco permanece sereno e esta serenidade não o abandona mesmo na sarça da Abolição. José do Patrocínio, Luiz Gama e André Rebouças são o próprio sofrimento escravo que pede, solicita, reclama e impõe a liberdade. Joaquim Nabuco é a razão que esclarece o sofrimento.

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