Antonin Artaud – Linguagem E Vida

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No belo e inteligente ensaio “Abordando Artaud”, Susan Sontag aproxima-se do poeta por meio de duas imagens. Antonin Artaud seria o herói da auto-exacerbação na literatura moderna e o xamã a fazer uma viagem espiritual por todos nós.
Sem dúvida o traço mais aparente do que se convencionou chamar de obra de Artaud – na verdade um fluxo incandescente de energia, inteligência e sensibilidade atualizado em formas literárias mistas – é a necessidade de “sair do inferno”. Mais do que a intenção de comunicar, o movimento incessante de seus textos indica uma tentativa exasperada de auto-expressão.
Ficando apenas nas utopias mais evidentes esboçadas nesta compilação – a do teatro e da linguagem – pode-se observar um movimento de refluxo que as dirige de volta para seu criador.
Não por acaso a idéia artaudiana de teatro a partir de certo período passa a ser exercitada no próprio Artaud, em evidente tentativa de substituição da arte pela vida.
Também sua concepção de linguagem evolui para chegar até mesmo à contestação da finalidade conativa dos textos. Ao fim e ao cabo a negação por Artaud da “palavra soprada”, como a batizou Derrida, alheia ao criador porque originada em pré-constituído campo lingüístico, termina levando ao impasse dos textos finais, jorros criativos estilhaçados definidos por glossolalias ou pelos gritos inarticulados de “Para Acabar com o Juízo de Deus”.
O que subjaz a todas essas tentativas é a viagem espiritual referida por Sontag. Longe de se constituir em mergulho numa psicologia individual, a auto-expressão artaudiana liga-se à busca dos “princípios”, espécie de prospecção da experiência originária do ser humano sufocada pela cultura do Ocidente.
Por esse motivo escolhemos “Van Gogh. O Suicidado da Sociedade” para fechar esta compilação. O movimento que anima “O Suicidado” está presente na maioria dos textos deste livro: o impulso de insurreição contra a cultura ocidental e a tentativa, incansavelmente repetida, de retorno às origens sagradas da vida e do teatro.
Escrito em Rodez, 1947, no último de doze anos consecutivos de internação em asilos de alienados, “Van Gogh” é um grito de rebelião contra a cultura estabelecida. Artaud, também ele um artista enclausurado por seus comportamentos anti-sociais, enxerga no pintor de Auvers-sur-Oise um duplo em genialidade e loucura.

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