Sigmund Freud – Luto E Melancolia

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O mérito de um texto bem escrito é, sobretudo, ético: liberta o leitor. Ao contrário do que estabelece certo senso comum pretensamente científico, à complexidade conceitual de um texto não precisa, nem deve, corresponder a obscuridade da escrita. Que o digam os leitores de Montaigne, grande filósofo de “fácil” leitura, cujas amplitude e profundidade do pensamento não ficam nada a dever a seus contemporâneos. Ao contrário, com frequência Montaigne os ultrapassa.
A obscuridade de um texto revela dois problemas que em geral andam juntos: a falta de clareza do pensamento e a vontade de impressionar e (ou) de intimidar o leitor. No segundo caso, reconhecemos o artifício empregado por quem deseja dominar um campo de pensamento através da supercodificação dos conceitos, dos mais simples aos mais intrincados, de modo a criar uma língua somente para iniciados – reles estratégia de mercado utilizada para assegurar o poder dos mestres e das corporações de ensino.
A escola lacaniana, à qual me filio com esforço, sofre desse mal crônico: a dificuldade dos textos, estabelecida por seu criador e perseguida por seus discípulos como se fosse um valor intelectual, promove uma permanente disputa em torno da imprecisão e da flutuação dos conceitos. Isso ocorreu, em parte, pela dificuldade da transposição textual da fluência de Lacan nos Seminários; em parte, porque, nos Escritos, Lacan revela que a transmissão escrita não era seu forte.
No comentário escrito em 1987 sobre a edição brasileira de Freud, Marilene Carone refere-se ao permanente esforço de clareza empreendido pelo criador da psicanálise: se a escuta clínica fundou a nova “ciência da alma” que revolucionou o século XX, nada mais adequado à sistematização do pensamento e à sua transmissão do que construir os conceitos a partir da linguagem usada pelos pacientes para expressar suas fantasias, padecimentos e angústias. A nomeação dos conceitos psicanalíticos deve muito à “clara língua do povo”, somada ao talento literário de seu criador: todos sabem que o único prêmio que Freud recebeu em vida foi o prêmio Goethe de Literatura, em 1930.

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