Affonso Romano De Sant’Anna – Como Se Faz Literatura

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Digamos que você queira ser escritor.
A primeira ideia que ocorre é a de passar para o papel os seus sentimentos ou contar algo da sua vida. Com esses sentimentos sinceros, você espera comover um editor e milhares de leitores.
Este raciocínio é lógico, mas não verdadeiro. Não bastam boas intenções para se fazer literatura. Também não basta um editor para você se transformar em um escritor. Entre escrever e virar socialmente um escritor vai uma longa distância.
A coisa é simples e ao mesmo tempo complicada. É simples porque, aparentemente, o que o escritor famoso fez foi exatamente aquilo que você imaginou: passou para o papel seus sentimentos, entregou os originais a um editor e o público o aclamou.
Qual a diferença entre quem quer se iniciar na literatura e o outro que lá está ganhando prêmios, nas listas de best-sellers e sendo recebido por estadistas e influenciando a política de seu país?
Existe uma visão romântica da literatura segundo a qual alguém pode se transformar em autor do dia para a noite. É claro que um médico famoso ou um artista de cinema, de repente, podem virar um best-seller Mas isto é outra coisa. O que as pessoas vão ler em tal livro não é a literatura, mas a marca da personalidade do autor. Nesse sentido, se eles, ao invés de escreverem, começarem também a pintar, também vão chamar muita atenção, encontrar compradores e expor com sucesso seus quadros.
Portanto, é bom ir logo descartando a ideia de facilidade. Pois se o político ou a personalidade importante viram autores famosos, é porque, por outro lado, em suas respectivas profissões, já desenvolveram uma carreira com todos os seus percalços e gratificações. Isto equivale a dizer o seguinte: para você se transformar em autor, há duas possibilidades: ou se tornar importante em uma atividade qualquer ou se especializar mesmo em escrever e fazer carreira dentro da literatura.

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