Nelson Rodrigues – A Coroa De Orquídeas

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Para todos os efeitos, Nelson Rodrigues é considerado o nosso maior autor teatral. Entenda-se, por autor teatral, aquele que produz textos para o teatro, ou seja, o palco propriamente dito. Há também o Nelson Rodrigues cronista, memorialista e romancista de um só romance, desde que se despreze as obras publicadas sob pseudônimo. Neste universo de produção literária, onde se enquadra a série de A vida como ela é… — da qual A coroa de orquídeas faz parte —, responsável por sua popularidade mais devastadora?
Como textos publicados em jornal, poderiam ser contos ou crônicas. Vou além: é o teatro de Nelson Rodrigues que aqui encontramos, abstraída a materialidade do palco. O teatro de Nelson invade aqui o texto do jornal: o cenário dessas pequenas cenas é sempre o mesmo: a casa com portão, a rua, a vizinha. Os personagens moram na Zona Norte e pecam na Zona Sul. Trabalham em edifícios, no centro. Este cenário não muda. Como nos filmes primitivos de Chaplin, é sempre o mesmo. Além do cenário, há o diálogo, que é o mesmo que Nelson sempre empregou em seus textos explicitamente teatrais. E — vantagem das vantagens — na série de A vida como ela é… temos acesso às rubricas que, nos textos para o teatro formal, são confiscadas pelos produtores, diretores e atores. Essas marcações, que o espectador perde no teatro e só chega a elas através da manipulação alheia, nesse teatro impresso cada detalhe nos chega com toda a sua frescura, sua luminosidade brutal e instantânea. O leitor é admitido ao fundo mais profundo do texto rodrigueano, sem necessidade de passar pela leitura de outros que dará ou não dará a cada cena o impacto visual-literário pretendido pelo autor.
Essas marcações são os punti luminosi de uma obra vasta e cada vez mais penetrante no subsolo de nossa cultura, de nosso modo de caminhar pela vida como ela é.

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