Nascido em Piracicaba, José de Alcântara Machado de Oliveira (1875-1941) foi, antes de mais nada, um paulista quatrocentão.
Professor da Faculdade de Direito de São Paulo e político, este membro da Academia Brasileira de Letras deixou-nos como herança da conjunção desses dois fatores a militância no Partido Republicano Paulista, o apoio à Revolução Constitucionalista, e a redação do anteprojeto do Código Penal em 1938. Como autor (embora possa ter sido mais conhecido no meio dos escritores modernistas por ser o pai de Antônio Alcântara Machado, um dos destaques daquele movimento no Brasil), publicou livros prestigiados de Direito. A obra que o consagrou para a posteridade, todavia, não foi nenhum tratado jurídico, mas Vida e Morte do Bandeirante, trabalho absolutamente marcante por suas qualidades e pelo seu pioneirismo.
Para que o leitor possa entender melhor seu caráter inovador, começaremos por destacar a diferença entre o ponto de vista adotado por Alcântara Machado naquela obra e o modo mais frequente de os historiadores trabalharem, em sua época.
Iniciemos, então, dizendo que a dedicação dos historiadores, desde o século XIX, à história da política, da diplomacia, das guerras, dos homens das classes dominantes, dos movimentos de poder intra e internacionais é bem conhecida e implicava, entre outras coisas, também uma suposta descrição cronologizada de eventos, bem como a atribuição de um sentido para o seu encadeamento.
A crítica a este viés de abordagem do passado foi feita progressivamente a partir dos anos 30 do século XX. Criticou-se, entre outras coisas, o reducionismo de considerar apenas os fatos dentro de períodos curtos (o que poderia levar a uma hipervalorização de elementos que, em uma escala maior, seriam considerados irrelevantes) ou a ênfase em personagens históricos, vistos como importantes, e suas respectivas ações. Há quem diga que o grupo de historiadores que atuou, a partir de 1929, no periódico francês Annales d’histoire économique et sociale foi pioneiro na abordagem do estudo de estruturas históricas de longa duração para explicar transformações sociais, e na valorização das mentalidades coletivas em vez dos perfis individualizados de personagens apresentados como historicamente importantes.

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