Igor Guedes Ramos – Genealogia De Uma Operação Historiográfica

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A primeira intenção deste livro é discutir algumas experiências de vida, as teses, as concepções teórico-metodológicas, as atividades políticas e alguns dos principais interlocutores de Thompson e de Foucault, procurando demonstrar como esses aspectos se relacionaram para formar o pensamento desses autores. Essa primeira tarefa foi fundamentada em diversos “ditos e escritos”; ou seja, livros, aulas, palestras, entrevistas, debates, resenhas etc. Aqui a preocupação é com o leitor iniciante, é fornecer subsídios para compreensão e utilização dos pensamentos de Thompson e de Foucault. Entretanto, os já “iniciados” poderão encontrar uma ou duas reflexões interessantes.
A segunda e mais fundamental intenção deste livro é discutir como os pensamentos de Thompson e de Foucault foram apropriados pelos historiadores brasileiros entre 1980 e 1990. Esse recorde temporal remete ao primeiro momento de recepção sistemática e significativa do pensamento desses autores e, o mais importante, foi quando ocorreram certas experimentações conceituais e certos procedimentos teórico- -metodológicos singulares; como a atualmente tão criticada utilização simultânea (ao mesmo tempo em um mesmo estudo) de procedimentos e noções de Thompson e de Foucault.
Para essa segunda tarefa, analiso principalmente teses e dissertações – que denomino, de agora em diante, obras/fontes – elaboradas no referido período, por pesquisadores brasileiros com formação na área de História e vinculados às instituições de produção historiográfica. Isso permite analisar especificamente a “instituição historiográfica brasileira”, no momento que pode ser considerado de gêneses da forma como se apresenta atualmente.
Neste momento, o leitor mais experiente pode estar pensando: ele quer retomar a antiga polêmica das “ideias fora do lugar”, sobre a subordinação do pensamento científico brasileiro em relação ao europeu ou ao norte-americano. Astor Antonio Diehl, por exemplo, em diversos estudos sobre a historiografia brasileira, discutiu essa questão e, inclusive, assinalou possíveis soluções para os problemas decorrentes da recepção “acrítica e dogmática” da produção intelectual estrangeira pelos intelectuais brasileiros. Essa não é a nossa perspectiva, uma vez que para tal empreendimento seria necessário primeiro estabelecer um operação historiográfica perfeitamente adequada à “realidade brasileira” – o que não está ao nosso alcance – para, então, demonstrar os equívocos das outras operações. O que interessa aqui é como os historiadores brasileiros dos anos 1980 tomaram posse de forma a acomodar a suas condições e interesses as reflexões, as posturas políticas, os métodos, as concepções de história, as formas de escrita etc. de Thompson e de Foucault que circulavam pelos meios acadêmicos mundiais.

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