Márcio Seligmann-Silva & Arthur Nestrovski (Orgs.) – Catástrofe E Representação

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Essa grande catástrofe, esse acontecimento pode ser representado de forma adequada ou qualquer tentativa de fazê-lo vai necessariamente banalizá-lo, diminuí-lo, domesticando-o, tornando-o mais palatável, compreensível, extirpando-lhe esse fator de radical estranheza que lhe dá características tão próprias? Por outro lado, se não é representado e simbolizado, não se estaria contribuindo para seu esquecimento, sua negação, sua idealização ainda que negativa, além de dar mais elementos para as forças do obscurantismo que disso podem prevalecer? Qual a importância dos sobreviventes e seus testemunhos da catástrofe? Como entender seus sentimentos? Como acolher seu depoimento?
Em 1973, essas questões receberam uma formulação radical que mereceu atenção por ter sido proferida por Theodor Adorno. Disse ele: “Depois de Auschwitz, não é mais possível escrever poema”. Para Adorno, a partir da incomensurável do Shoah, qualquer tentativa de representá-lo seria uma traição à verdade, uma injustiça para com suas vítimas, uma banalização insuportável. Mais ainda, se esta monstruosidade é produto do pensamento e da representação, estas categorias estão definitivamente sob suspeita, somente toleráveis doravante na medida em que se voltem contra si mesmas, numa desconstrução sistemática. Essa posição aporética de Adorno é posteriormente amenizada, quando reconhece que a arte pode enfrentar a representação de tais calamidades sem trair sua verdadeira essência.

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